artistas | Gustavo von Ha, 1977
Vive e trabalha entre São Paulo e Presidente Prudente

   

 

 

 

 

 
   

O Espelho e o Casamento    

Sempre que no trabalho existem imagens vindas da mídia, as pessoas tendem a dizer que esta obra é Pop. Tal afirmação perdeu o sentido recentemente uma vez que se considere que a cultura de massa já tem 60 ou 70 anos, e que portanto todos os que aqui estão já nasceram pelo menos na era do rádio e do jornal impresso. Dessa maneira quase toda imagem que conhecemos ou já provem da mídia ou será brevemente absorvida por esta e por tanto faz parte da chamada cultura de massa. Isto posto, o foco de interesse se desloca para a escolha das imagens e quais estratégias discursivas o artista está propondo.

 Nas obras que Gustavo Von Ha apresenta nesse momento existem dois assuntos que se sobressaem, são eles: o espelho e o casamento.

 O espelho aparece no processo que Von Ha utilizou na execução dessas obras, são o que ele chama de espelho mágico, nome referente a um brinquedo de desenhar, uma placa de acrílico semi-espelhado que reflete de um lado a imagem original que está do mesmo lado. O desenho é feito como se estivesse por cima do original, só que ao contrário, espelhado. David Hockney em seu livro O Conhecimento Secreto demonstrou exaustivamente como muitos artistas desde 1400 utilizaram processos óticos como ferramenta de desenho.  O espelho como elemento narcísico, duplificador, aparece na pintura desde então, mas talvez a pintura mais espelhadamente construída tenha sido "Las Meninas", 1656, de Diego Velásquez.

Não é sem motivo que Lacan associa a pintura a um jogo de espelhos e contemplação (1), onde o assunto principal se manifesta em uma relação de aberturas e fendas que culmina 
no órgão genital oculto da Infanta Margarida, então com 5 anos, no centro do quadro, como uma predestinação figurada no espelho ao fundo, onde se vê a imagem futura da menina, a rainha, com seu olhar medusante (2).

 O segundo assunto que aparece em sua obra é o do casamento. É interessante notar a grande variedade de parcerias que Gustavo conseguiu construir: mulher com monstro de duas cabeças, Batman e Robin, os sete anões, princesa e príncipe, homens sozinhos, mulheres sozinhas e Sherek sozinho. Mesmo quem está sozinho no desenho parece estar procurando alguém. Num certo sentido esses noivos a procura da noiva lembram a máquina de amor que Duchamp propôs em seu Grande Vidro, 1923, como ele disse "a noiva é basicamente um motor" e o que a move é a “gasolina do amor (uma secreção de suas glândulas sexuais)(3)”.
 
 Pode parecer uma escolha natural, mas se a escolha fosse feita por outra pessoa poderiam existir outras imagens como carros, motos, esportes, animais, plantas, paisagens, insetos, máquinas, peixes, bandeiras, signos, estampas e muito mais.

  O casamento como motor, a busca do outro, mesmo que seja no espelho, o medo do isolamento, essas parecem ser as analogias que Gustavo está colocando em seus trabalhos, muito mais complexo do que uma análise simplificadora pode produzir. A busca do outro diz muito de quem busca, "eu sou um pouco o que eu procuro", como a dupla que se forma no espelho, real e virtual.

(1) 13 Seminário Livre,, O Objeto da Psicanálise, Jacques Lacan, 1965, não publicado, www.lacan.com
(2) O Olho e a Fenda, Valêncio Xavier, Folhe de São Paulo, Caderno +Mais, 5 de Setembro, 1999.
(3) Duchamp, Calvin Tomkins, Cosacnaify, São Paulo, 2005, pag. 14.

Sergio Romagnolo, novembro de 2008


As duas faces do refletir

A multiplicidade de percepções habita o trabalho de Gustavo von Ha, numa alquimia criativa para a qual convergem reflexos múltiplos, convidando o espectador a diversas experiências sensíveis e imaginativas. Sua instalação Daily Mirror(s), é um site-specific, e abre novas perspectivas dentro de sua obra – mostra combinações fragmentadas e misteriosas ambigüidades.

A série de ‘bolas’ espelhadas é fruto de uma elaboração primorosa. Von Ha faz uso de novas tecnologias, a partir de material industrial como o acrílico, metalizando a superfície da esfera, e isto faz surgir um espelhamento comandado cuidadosamente pelo artista, que, por sua vez, não perde de vista seu objeto principal: a pintura. Seu gestual envolve pinceladas e cores, de delicada sutileza. As várias camadas de pintura que o artista introduz nas ‘bolas’ – rosa, magenta, verde, violeta e azul profundo – revelam seu trabalho íntimo no embate de seu gesto pictural e o espelhamento de imagens análogas. Ali, processam-se os reflexos que vão modificando o trabalho o tempo todo, conforme a luz e a paisagem.]

A pintura/desenho sobre espelhos de Von Ha teoriza e põe em prática a forma dos antigos calígrafos, criando conceitos a partir de imagens do cotidiano de qualquer artista plástico, de modo a fazer com que o desenho nos espelhos apareça como uma inscrição gráfica do gesto, com base na soma dos planos convexos dos reflexos.

Pode-se observar que, em escala reduzida, as bolas pintadas e assim dispostas obrigam a uma apresentação serial de diversas variações de fragmentos do mundo real. E, dessa forma, arremessam o espectador para dentro dos espelhos como num close de focos simultâneos. Esta simbiose certamente instigará o espectador a participar, interagir e penetrar, como na experiência de Alice, num mundo de reinvenção que lhe permitirá a fruição estética que se eleva e se expande nos reflexos, já que a obra constrói um campo visual que solicita do olhar o exercício do conhecimento e da imaginação.

O trabalho de Von Ha transforma o espaço em espetáculo e a instalação ultrapassa a contemplação, imersa em imagens reflexas e convexas que expandem a limitação do que é possível na arte contemporânea – assim como a transitiva relação entre arte e sociedade. Sua obra sugere uma abertura ao movimento, dando margem ao surgimento de novos mecanismos de percepção estética, como a fragmentação da cultura contemporânea, por exemplo. Por meio de diversas variações de fragmentos do mundo real, o artista vai arremessando o espectador para diversos focos simultâneos, e com isso dá corpo a uma força externa, a “sombra do outro”, na ilusão de realidade... e a obra se instala ali, no momento de suas próprias visões.

Von Ha confessa-se seduzido pela lembrança de espelhos de sua infância, quando os via na loja do pai, no interior de São Paulo, e dos espelhos espalhados na fazenda do avô, para uma melhor visão do gado no pasto. Estas lembranças se mesclam às experiências de uma viagem recente a Tóquio, Kioto, Nara e Nakamura, quando em todas as esquinas e templos estão instalados espelhos convexos refletindo tudo, como um vômito de imagens. Assim, ele se apropria de imagens, as reavalia e tenta ‘descolar’ de nossos pensamentos qualquer consenso preexistente. E, de quebra, ainda analisa a quem a arte contemporânea se dirige e a qualidade que ela produz.

Não dá para esquecer as influências de Warhol, da pop americana, Leonilson, Leda Catunda e as questões diferenciadas de Anish Kapoor. Von Ha vai destilando imagens e, nessa atmosfera paradoxal, vai exalando a vida que lateja em nossas retinas, e, veladamente, os questionamentos, as sensações existenciais e universais do tédio cotidiano. Com isso, sua obra permanece no imaginário de quem percorre os caminhos espelhados. O espectador tem a oportunidade de se confrontar com a dor de viver e pode se vislumbrar, em duplos, no jogo de espelhos, na pulsão dinâmica da própria vida.

Inacessíveis e desassociadas, as imagens fugazes vão sendo reunidas em um processo de autodescoberta. As relações vão sendo tecidas sem interrupção. Percebe-se, assim, um olhar quase tátil, que não priva o expectador de se confrontar com a intimidade de seu próprio ser, em violadas intimidades de múltiplas visões e imagens fugazes. Por outro lado, tais sugestões anestesiam a identidade do ser e, por momentos, celebrizam a figura do espectador, que tem seu momento de glória, e de impostura. O homem, em relação com o vazio, pode digerir sua existência no limite do espelhamento.

Apesar da questão tecnológica de execução que transparece das ogivas convexas pintadas e espelhadas, o artista usa a delicadeza como método em sua eterna busca da pintura, nos amarelos, roxos luminosos, vermelhos vibrantes, azuis cobalto. Expõe esta vulnerabilidade com lirismo, desafios que o trabalho lhe impõe. Sua formação pictórica, de embate carnal com a tela em pinceladas e gestos, de eterna paciência e experimentação, encontra, na experiência do espelhamento a mesma revelação da pintura.

Considerando que a tinta tem caráter próprio, o artista ‘pinta’ utilizando a fatura do tempo. Sua poética é a poética da cor, da pintura. Sua mente curiosa e jovem se abre a novos suportes, novas tecnologias, e tudo corrobora para a “vontade de modificar o mundo” por meio da arte. Meticulosamente, suas pinceladas em harmonioso esquema, explodem nas enormes ogivas convexas de acrílico, como reflexo do mundo em constantes mudanças e, ao mesmo tempo, transformam as imagens em numerosas fragmentações.

Estas obras, verdadeiras esculturas/pinturas, paradoxalmente, colocam em evidência a relação dos objetos com os planos: elas se multiplicam nos planos reflexivos das bolas espelhadas que refletem flashes, o outro invertido, fazendo surgir novas formas de um plano não virtual, num jogo de forças que se articulam.

Von Ha vem intensificando suas pesquisas na questão das transparências no campo da arte e os trabalhos de esferas espelhadas, translúcidas – e com esmerada pintura. Ele afirma que a sutil ilusão de realidade se estende para além da transparência, em eterna modificação, remete ao impressionismo de Monet. Portanto, a série de bolas transparentes e espelhadas exerce uma sedutora força, pois ali o trabalho está o tempo todo se modificando conforme a luz, e o que vai sendo refletido na peça, a partir daí, passa a ter a imagem capturada de infinitas possibilidades e diversos desdobramentos.

Os reflexos de espelhos se multiplicam em encruzilhadas de um labirinto visual como se estivéssemos na Sala dos Espelhos de Versailles. E para confundir e criar uma ambientação mais experimental, Von Ha insere na mostra um vídeo realizado em agosto de 2006, fazendo com que as imagens filmadas interpenetrem as imagens e reflexos diversos da instalação.

No vídeo, uma figura feminina e diáfana, filmada pelo artista nos gramados do Central Park, circula por entre bolhas de sabão e bolhas espelhadas verdes e roxas. Mesmo que seja no plano dos devaneios, estas imagens vão estimulando a possibilidade de contraponto para explorar o espaço dos outros. Ali, o olhar se coloca a serviço das imagens e não o contrário. Esta projeção, no meio da instalação, desloca a questão da paisagem para dentro do espaço. E cria outra superfície que envia imagens projetadas para novos scripts que se refletem nas bolhas translúcidas e espelhadas do chão e das paredes. Esta extração/incrustação opera em determinado estágio de consciência: a projeção nos sobrepasssa, passivamente, transportando flashes e jogando-os para fora.

O excesso de informações, que deveria resultar em imagens intrusas, na realidade confere uma metamorfose de imagens, algo que poderíamos considerar ‘a simulação da vida contemporânea’. A instalação, desse modo, corporifica a comunicação de mensagens, retifica a constante inserção de dados, o excesso de ondas mediáticas e o acúmulo de informações... Na realidade, as bolas espelhadas poderiam receber a designação, talvez, de ‘projetores e prolongadores da ação dos reflexos’.

A volumetria das esferas espelhadas se transfere para uma superfície de ilusão, decodificando o espaço em movimento topológico. O gramado do Central Park, com as bolas verdes translúcidas, e as imagens luminosas surgem em interceptações efêmeras no espaço da natureza. Neste momento, introduz-se a confusão entre realidade e representação na ‘alegoria da caverna’ do pensamento platônico.

Conceituando esta proposta ‘relatividade’, Von Ha expõe, pela primeira vez, uma holografia, a Caixa de Pandora, uma imagem virtual em seu estado puro, com a qual ratifica a posição do artista enquanto criador de ilusões, duplicando e desmaterializando a obra de arte. Aqui, a imagem é real, está para ser vista e não pode ser tocada, porque não existe fisicamente. Floresce o senso lírico do tempo e da fisicalidade. Realizada com dois espelhos côncavos metalizados por dentro e pintados de preto por fora, esta holografia – método descoberto e desenvolvido pelo norte-americano Bob Krick, em Michigan, em 1977 – é percebida por nossos olhos como uma imagem dialética do passado e do agora, do real e do irreal, e do princípio do infinito.

Em outras palavras, a projeção da imagem real surge concretamente; não é ilusão, mas se constitui em uma lembrança do presente de mundos paralelos, se mantém no mistério e traduz a ansiedade do vir-a-ser.

De fato, Von Ha viabiliza a mistura de focos e interferências que enriquecem nossa experiência, estabelecendo contatos e criando uma ponte em que se destaca a imagem de determinação imutável do aqui-e-agora.
Cristina Burlamaqui
Rio de Janeiro, novembro de 2006



Curriculo

Formação

2007         Revisão do trabalho com Sergio Romagnolo, São Paulo.
2006         Holografia, Holographic Studios, Nova York.
2005         Grupo de Pesquisa da Imagem com Leda Catunda,
                 Faculdade Santa Marcelina, São Paulo.
2004         Produção e Edição de Vídeo Digital, Dv New York, Nova York.
1998-01    Comunicação, Universidade do Oeste Paulista, Presidente Prudente.
1982-88    Ateliê de pintura do mestre Takeo Sawada, Presidente Prudente.


Exposições coletivas

2008         L´exposition Collective des Artistes de La Galerie Sycomore,
                 Sycomore Art Galerie, Paris.
2007         Contemporâneos, Sycomore Art Galerie, Paris.
2006         Acervo 2006, Thiergeville, Normandia
                 Transparência, Galeria Eduardo H. Fernandes, São Paulo
                 SP-Arte, Pavilhão Bienal de São Paulo, Galeria Mercedes Viegas
                 Mapa Cultural Paulista.
2005         Bienal Internacional de Florença, Florença
                 Latin American Art Today, Promo-Arte Gallery, Tóquio
                 Spark Video Canada International, Forest City Gallery, London.
2004         Conexões, Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, Niterói 
                 Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Dannemann, São Félix
                 Mostra Coletiva, Mube, São Paulo.
2003         Porto Alegre em Foco, Pinacoteca Barão de Santo Ângelo,
                 Porto Alegre
                 II Salão três Lagoas em Movimento, Fundação Bienal do MS 
                 Canon Digital Creators Contest 2003, Nova York.
2002         NYC Soho International Art Competition
                 mapa Cultural Paulista, São Paulo
                 VII Circuito Internacional de Arte Brasileira
                 Na Europa, exposições na UCCLA, Lisboa 
                 Casa do Brasil, Madri / Canning House Gallery, Londres.
2000         Mapa Cultural Paulista, São Paulo.
1999         Salão oficial de Artes Plásticas e Design Brasil 500 anos de Arte, São Paulo 
                 I Fórum Municipal de Cultura, Presidente Prudente.
1998         Mapa Cultural Paulista, São Paulo.


Exposições individuais

2008        O Espelho Mágico, Galeria Eduardo H Fernandes, São Paulo
2008        Images Reflechies, Galeria Sycomore Art - Paris
2008        Anexo, Galeria Laura Marsiaj, Rio de Janeiro, São Paulo 
2008        Private Addiction, Firehouse Plaza Art Gallery NCC, Nova York.
2007        Instalação, Spart Cultural, Presidente Prudente
                Instalação, sala Especial V Território da Arte, Araraquara.
2007-06   Daily Mirror (S), Centro Cultural Parque das Ruínas, Rio de Janeiro
                Once Upon a Time, instalação site specific no Central Park, Nova York.
2004        Felicidade; Necessidade; Desejo, Galeria Lycra®, São Paulo
                Bottles and Letters, The Gallery 54, Londres.
2003        Damerograma, El Pacha, Ibiza.
2002        Garrafas - O conteúdo da Forma, Pinacoteca Ernesto Mendes, São Paulo 
                O Modo da Moda, Galeria Portal, São Paulo
                Garrafas, Galeria Teresa Xavier, Rio de Janeiro
                Mais do Mesmo, Galeria João Jorge Saad, São Paulo.
2000        Magenta com Laranja, Espaço Cultural, São Paulo.
1999        Pinturas, Spart Cultural, Presidente Prudente.
1998        Longe Daqui, Aqui Mesmo, Spart Cultural, Presidente Prudente.


Premiações

2006       Menção Honrosa Mapa Cultural Paulista pelo Vídeo "Damerograma Falado".
2003       Prêmio 2º Salão de Artes Plásticas Três lagoas em Movimento, Pró-Bienal MS.
2002       Menção Honrosa Internacional no Masp - Museu de Arte de São Paulo,
               pelo destaque das obras apresentadas no VII Circuito Internacional de
               Arte Brasileira na Europa.
1999       Menção honrosa Salão Oficial de Artes Plásticas e Design Brasil 500
               anos de Arte, São Paulo.
1985       Medalha de ouro The 3rd Kanagawa Biennial World, Tóquio.
1983       Menção Honrosa VIII Concurso e Exposição de Pintura, Tóquio.



 
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